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24 de dezembro de 2012

Natal... Na província neva - Fernando Pessoa



Natal... Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.


Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Estou só e sonho saudade.


E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!


Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 115.
1ª publ. in Notícias Ilustrado , nº 29. Lisboa: 30-12-1928.

6 de janeiro de 2012

Joana d' Arc por Cecília Meireles


Em referência aos 600 anos de nascimento de Joana d' Arc nesta sexta-feira (06/01) segue abaixo um soneto da poetisa brasileira Cecília Meireles sobre a heroína de guerra da França e santa para os católicos.

texto de Espectros - Cecília Meireles (1919) publicado em passeiweb.com 

Firme na sela do ginete arfante,
Da coorte na vanguarda, ei-la às hostis
Trincheiras que galopa, delirante,
Fronte serena e coração feliz. 

Sob os anéis metálicos do guante,
Os dedos adivinham-se viris,
Que sustêm o estandarte palpitante,
Onde esplende a dourada flor-de-lis. 

Rica de sonhos, crença e mocidade,
A donzela de Orléans, no seu tresvário,
De mística, na indômita carreira

Sorri. Nenhum tremor a alma lhe invade!
E, entanto, o olhar audaz e visionário
Já tem clarões sinistros de fogueira!...

foto: estátua equestre parisiense de Joana d' Arc (heróis medievais - blogspot)

25 de dezembro de 2011

Compras de Natal - Cecilia Meireles



Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 80. publicado no site: releituras.com


A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.
As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.

Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.

Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.

24 de dezembro de 2011

Num meio-dia de fim de Primavera - Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)


“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). - 32. site: Arquivopessoa.net


VIII — Num meio-dia de fim de Primavera


Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas —
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é que ele as criou, do que duvido.» —
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

……

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra

Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios

Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
……

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.


……

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

22 de dezembro de 2011

Chuva de Verão - Devaneios Literários (Textos)



Quando a chuva começou, a vontade de chorar apertou.

Céu nublado o dia todo, ameaçando despencar em questão de segundos.

A semelhança era intensa. Assim como o céu, suas emoções também estavam nubladas, a beleza da luz do luar escondida atrás de tantas nuvens carregadas.

No dia anterior, o céu azul foi se transformando conforme os segundos se passavam. Ao final do dia, uma espessa camada de nostalgia cobria o horizonte, deixando o ar mais pesado, mais comprimido.

Era assim com os pensamentos também.

Não fazia muito sentido, mas o céu refletia todos seus sentimentos.

Aquele dia, aquele maldito dia, estava representado perfeitamente pelas cores frias que banhavam a cidade, ainda que fosse um dia de calor infernal.

Como a chuva, era esperado que suas lágrimas refrescassem sua mente, possibilitassem que continuasse caminhando. Sempre em frente, sem olhar para trás.

Mas, oh, que saudades daqueles dias tão belos... Como poderia seguir em frente, sem dar nem uma pequena bisbilhotada nos sorrisos anteriores?

Era um alívio, entretanto, que pelo menos o céu estivesse fazendo a mesma coisa. Chorando suas gotas de chuva, as nuvens despejavam o desespero sobre a cidade. Mas... isso não era ruim.

Ainda que a dor e a agonia de tanto tempo com um buraco no peito estivessem presentes em cada mísera lágrima, as pessoas lá embaixo, nas ruas, estavam sendo presenteadas com pelo menos uma noite refrescante.

E era exatamente isso que trazia um ar de conforto à situação. Porque, afinal, chuvas de verão sempre foram famosas por serem passageiras...





Leticia





5 de dezembro de 2011

Sorriso - Devaneios Literários (Textos)


Enquanto ele a segurava pela cintura, ela mantinha o rosto em seu pescoço, escondendo seu sorriso.
Enquanto ela a abraçava, ela sorria, de olhos fechados.
Enquanto uns gritavam de alegria, ela mal conseguia manter o sorriso forçado em seu rosto.
Enquanto outros deliravam de desgosto, ela mal conseguia encaixar tanta alegria em apenas um par de lábios.

No meio de uma discussão, ela sorria.
No meio de um beijo, ela sorria.
No meio de uma despedida, ela sorria.
Mas, dessa vez, era tristeza que tentava não deixar transparecer.

Era doentio, era esquisito.
Era anormal, era uma aberração.
Ela sempre achara que nascera ao contrário, vendo o mundo sob uma perspectiva totalmente oposta.
Era pura ironia.

Não se continha:
Via desgraça, sorria.
Via felicidade, sorria.
Sorrisos ocultos, sorrisos forçados.

Sorrisos que só ela sabia sorrir.
Sorrisos que sempre procurara em outro alguém.
Sorrisos estes que, mesmo não estando estampados em sua face, eram visíveis aos olhos dos mais observadores.
Sorrisos impossíveis.

Ela só sabia sorrir.
Ela não sabia sorrir.
Ela confundia outros com seu sorriso.
Ela encantava a todos com seu sorriso.

Sorriso discreto, sorriso aberto.
Sorriso tímido, sorriso esperto.
Sorriso bonito, sorriso maroto.
Sorriso estranho, sorriso torto.

Cheia de sorrisos, ela era vazia.
Mas, oh, ninguém nunca poderia desconfiar.
Com todos seus sorrisos, com todos esses sorrisos...
Ele que a segurava e ela que a abraçava... nunca pensaram que estavam sendo enganados.






Leticia