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15 de fevereiro de 2012

Inércia - Devaneios Literários (Textos)


Não era tristeza, não era felicidade. Não era nada. Era um profundo torpor de estagnação. Tédio. Tique, taque. Apenas vinte segundos. Não fazia sentido, não havia clareza em seus pensamentos. Confusão? Era mais do que isso. Era algo mais parecido com incapacidade, tanto física quanto mental.

A agonia do tempo demorado domina seu corpo, deixando tudo ainda mais insuportável. Queria sair dali, fugir de si mesmo até se perder. Sozinho. Reprimiu a vontade de perder a cabeça, lutando ao máximo para chegar a um lugar propício. Queria gritar. Gritar até perder todo o ar e então continuar gritando.

Sim, ele tinha seus bons momentos, embora não conseguisse se alimentar apenas disso. Sempre em busca de algo mais. Ele continuamente quebrava a cara. Não havia nada de novo, ainda que todos os dias abrigassem inúmeras novidades. Essas coisas frescas não o satisfaziam. Não seriam elas que fariam seus dias valerem a pena.

Ah, elas...

Tão doces, tão puras... E ainda assim completamente traiçoeiras. Eram elas as únicas culpadas por ele se perder em tantos delírios carnais; eram elas que lhe conferiam sanidade, por mais insano que isso pudesse ser. Atualmente, ele vivia por esses poucos momentos de pseudo-sanidade, aonde tinha lampejos de falas, memórias... e então entendia. Por poucos segundos, ele sentia como se guardasse todos os segredos do universo.

E então acabava. Tudo voltava àquele torpor inicial, aonde tudo que existe é algo vago e desimportante.

Agora algo muito curioso, é que, passados aqueles segundos gloriosos, tudo se perdia. Todo o conhecimento que ele acreditava possuir se esvaía tão rápido quanto havia chegado. Todos os segredos, todas as verdades... Mas todas as mentiras também. Ele se descarregava, física e mentalmente, até a última gota, até que não sobrasse absolutamente nada além da realidade inerte.

21 de janeiro de 2012

Cachinhos Dourados - Devaneios Literários (Textos)


Se olhando no espelho, ela não gostava do que via. Era confuso: ela estava satisfeita com sua imagem, mas não gostava de si mesma. No começo, ela não entendia por quê pensava do jeito que pensava.

Todos os dias, via a mesma garota refletida no espelho. Todos os dias, encarava a mesma dúvida. Por quê?

Ela gostava de seu rosto pequeno, do queixo fino, do nariz reto e dos lábios em um tom escuro de rosa.

Ela gostava, também, de como suas sobrancelhas arqueadas lhe conferiam um ar frio e calculista, irônico e solitário.

Ela gostava de como o castanho claro de seus olhos combinava com os tons louros das madeixas que caíam como uma moldura em volta de seu rosto.

Mas, mais do que tudo, ela gostava de sua pele ridiculamente clara, de sua palidez exagerada.

Era um rosto duro, com a tristeza e os insultos estampados em cada traço que o constituía. E, ainda assim, era um rosto bonito e ela gostava disso.

Mas isso não era tudo. Ela considerava seu rosto bonito, sim, mas não se sentia merecedora de nada disso. Olhando seu próprio reflexo, ela sabia que não era feia, embora se sentisse péssima, horrível. Por quê?

Às vezes, ela sentia como se tivesse roubado aquele corpo e estivesse apenas ali como parasita. Ela era horrenda por dentro, mas a casca apresentável distraia os pensamentos dos outros.

Ela duvidava que fizesse sentido para alguém, mas ela não sentia como se pertencesse àquele corpo. Olhava a mesma garota no espelho todos os dias, mas não se reconhecia. Não era certo. Ela não merecia aquilo.

8 de janeiro de 2012

Dormência - Devaneios Literários (Textos)



Cócegas. Não, era mais do que isso. Era como se pequenas agulhas estivessem perfurando sua pele, começando pelas palmas das mãos e espalhando-se pelas pontas dos dedos.

Ela cerrou os punhos algumas vezes, tentando se livrar da sensação, tentando voltar ao normal. Não que as agulhadas fossem necessariamente ruins, mas também não eram boas. Ou pelo menos era o que ela pensava até o momento. Certo?

Não sabia. Franziu o cenho, tentando entender. Era possível? Era possível que existisse um nível de satisfação tão grande, aonde aquelas agulhadas fossem o ápice do momento? Era possível que tal prazer fosse atingido, a ponto de não conseguir diferenciar tal sensação como boa ou ruim?

Era tudo confuso demais... A cada segundo que passava, as agulhadas ficavam mais rápidas, mais frenéticas. A cada segundo, o ritmo aumentava.

Ela fechou as mãos mais uma vez, com força, enterrando as unhas nas palmas e sentindo o contraste. Respirou fundo - bom, se é que aquilo podia ser classificado como respiração.

Inspirava o ar de forma irregular, em uma velocidade tão absurda que quase não havia mais diferença entre inspirar e expirar. A lucidez já começara a se esvair, deixando-a de algum jeito mais leve, mais livre...

Ela sabia que era apenas uma questão de tempo até se entregar, até perder a consciência e se deixar dominar pelo frenesi de agulhadas que continuava em suas mãos, se expandindo lentamente ao longo de seus braços.

A cada segundo, ficava mais difícil respirar. Pensar. Cogitar. Proibir. Testar. Refazer. Não, isso é tudo baboseira... Não há tempo para bobagens. Ela se sentia próxima ao fim, sem saber exatamente que fim era aquele. Fim de sua vida? Fim de um capítulo? Fim das cócegas tão peculiares que agora já a atingiam em uma altura próxima ao coração?

Confusão. Afinal, isso era bom ou não? Ela não conseguia respirar, não sabia mais o que pensar, não conseguia se decidir nem mesmo se a vida dela dependesse exclusivamente disso.

As agulhadas agora eram tão frequentes, tão fortes... que não pareciam mais agulhadas, e sim uma única pressão, simples e uniforme, porém intensa. Ela estava tonta. Ofegante e cansada.

Ela estava nas nuvens. E também no inferno.

22 de dezembro de 2011

Chuva de Verão - Devaneios Literários (Textos)



Quando a chuva começou, a vontade de chorar apertou.

Céu nublado o dia todo, ameaçando despencar em questão de segundos.

A semelhança era intensa. Assim como o céu, suas emoções também estavam nubladas, a beleza da luz do luar escondida atrás de tantas nuvens carregadas.

No dia anterior, o céu azul foi se transformando conforme os segundos se passavam. Ao final do dia, uma espessa camada de nostalgia cobria o horizonte, deixando o ar mais pesado, mais comprimido.

Era assim com os pensamentos também.

Não fazia muito sentido, mas o céu refletia todos seus sentimentos.

Aquele dia, aquele maldito dia, estava representado perfeitamente pelas cores frias que banhavam a cidade, ainda que fosse um dia de calor infernal.

Como a chuva, era esperado que suas lágrimas refrescassem sua mente, possibilitassem que continuasse caminhando. Sempre em frente, sem olhar para trás.

Mas, oh, que saudades daqueles dias tão belos... Como poderia seguir em frente, sem dar nem uma pequena bisbilhotada nos sorrisos anteriores?

Era um alívio, entretanto, que pelo menos o céu estivesse fazendo a mesma coisa. Chorando suas gotas de chuva, as nuvens despejavam o desespero sobre a cidade. Mas... isso não era ruim.

Ainda que a dor e a agonia de tanto tempo com um buraco no peito estivessem presentes em cada mísera lágrima, as pessoas lá embaixo, nas ruas, estavam sendo presenteadas com pelo menos uma noite refrescante.

E era exatamente isso que trazia um ar de conforto à situação. Porque, afinal, chuvas de verão sempre foram famosas por serem passageiras...





Leticia





5 de dezembro de 2011

Sorriso - Devaneios Literários (Textos)


Enquanto ele a segurava pela cintura, ela mantinha o rosto em seu pescoço, escondendo seu sorriso.
Enquanto ela a abraçava, ela sorria, de olhos fechados.
Enquanto uns gritavam de alegria, ela mal conseguia manter o sorriso forçado em seu rosto.
Enquanto outros deliravam de desgosto, ela mal conseguia encaixar tanta alegria em apenas um par de lábios.

No meio de uma discussão, ela sorria.
No meio de um beijo, ela sorria.
No meio de uma despedida, ela sorria.
Mas, dessa vez, era tristeza que tentava não deixar transparecer.

Era doentio, era esquisito.
Era anormal, era uma aberração.
Ela sempre achara que nascera ao contrário, vendo o mundo sob uma perspectiva totalmente oposta.
Era pura ironia.

Não se continha:
Via desgraça, sorria.
Via felicidade, sorria.
Sorrisos ocultos, sorrisos forçados.

Sorrisos que só ela sabia sorrir.
Sorrisos que sempre procurara em outro alguém.
Sorrisos estes que, mesmo não estando estampados em sua face, eram visíveis aos olhos dos mais observadores.
Sorrisos impossíveis.

Ela só sabia sorrir.
Ela não sabia sorrir.
Ela confundia outros com seu sorriso.
Ela encantava a todos com seu sorriso.

Sorriso discreto, sorriso aberto.
Sorriso tímido, sorriso esperto.
Sorriso bonito, sorriso maroto.
Sorriso estranho, sorriso torto.

Cheia de sorrisos, ela era vazia.
Mas, oh, ninguém nunca poderia desconfiar.
Com todos seus sorrisos, com todos esses sorrisos...
Ele que a segurava e ela que a abraçava... nunca pensaram que estavam sendo enganados.






Leticia