Além de mestre do suspense, Alfred Hitchcock bem poderia ser chamado de mestre das adaptações. Sim, ele se adaptava às exigências dos estúdios em seus primeiros tempos em Hollywood e também às limitações de roteiro, espaço, recursos tecnológicos e orçamento de cada película, mas o mais interessante é que boa parte de sua obra é formada por adaptações de livros, contos, peças de teatro e outros relatos, em sua maioria medíocres, mas que se tornaram obras-primas nas mãos de Hitch.
Nos tempos do cinema mudo, com vinte e poucos anos, Hitchcock fazia de tudo um pouco junto ao diretor Graham Cutts. Uma dessas funções era criar o roteiro, que muitas vezes era baseado em livros. Seu único roteiro original, ainda que em parceria com escritores não-creditados, foi “The Ring”, de 1927.
Daphne du Maurier foi uma escritora relativamente famosa até meados do século XX e se seu nome subsiste na literatura devemos isso Hitchcock. Começando com “Estalagem Maldita / Jamaica Inn”, em 1939, Hitch dirigiu algumas adaptações de obras da autora que se tornaram filmes inesquecíveis. Um deles, o primeiro do diretor em solo americano, é “Rebecca”, ganhador do Oscar de Melhor Filme em 1941, apesar de não ser o que mais merecia. E, em 1963, foi a vez de um conto da autora se transformar no hoje reverenciado “Os pássaros”.
O tratamento das histórias de Daphne era feito com a retirada de detalhes supérfluos e a mudança de pontos a fim de adicionar suspense à trama. Assim ficamos na ponta da poltrona, nervosos por não saber se a segunda Senhora de Winter sobreviverá ao final de “Rebecca”. Ao mesmo tempo, “Os pássaros” se torna mais interessante ao ter como protagonista uma moça elegante ao invés de um fazendeiro, o que retirou mensagens subliminares da Guerra Fria e adicionou várias especulações. Outra autora que passou pelo crivo de Hitchcock foi Patricia Highsmith. O primeiro livro da autora, também conhecida por adicionar muito suspense às suas obras, a ser adaptado para o cinema foi “Pacto Sinistro”, em 1951. Uma pena que Hitch não tenha trabalhado com mais obras dela.
Em Hollywood, embora nunca sendo creditado como roteirista, Hitchcock trabalhava lado a lado com os responsáveis pelo roteiro, já visualizando a maneira como iria filmar e editar as cenas. Uma de suas colaboradoras frequentes era a esposa Alma Reville, que adaptou a história de “A sombra de uma dúvida”, que mais tarde Hitchcock confidenciaria a François Truffaut ser seu filme predileto. Além disso, ela foi responsável por outros vários filmes dirigidos não só por Hitchcock, e também trabalhou como editora, continuista e editora assistente de películas.
Aquele filme que é considerado sua obra-prima, “Psicose”, surgiu de um livro e Hitchcock fez questão de comprar todos os exemplares disponíveis para que o público não se adiantasse e descobrisse o final da história sem ver o filme. E a obra que recentemente ganhou o posto de melhor filme de todos os tempos segundo a revista Sight & Sound, “Um corpo que cai / Vertigo”, veio de um livro francês e foi rodado pouco depois que Hitchcock perdeu a oportunidade de adaptar “As diabólicas”, dos mesmos autores do livro que se tornaria "Vertigo" , para as telas.
De seus filmes, seis foram criados a partir de roteiros originais e a qualidade desses filmes varia: desde o aclamado “Interlúdio” (1946) até “Cortina Rasgada” (1966), que, convenhamos, veio depois de Psicose e portanto era difícil superar seu predecessor. Na semana em que os nove filmes que Hitchcock dirigiu de 1925 a 1929, ainda durante o cinema mudo, se tornaram patrimônio da humanidade segundo a UNESCO, nada melhor que relembrar este grande artista com qualquer uma de suas sempre boas películas, originais ou adaptadas.


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